foto de Joana providência

JOANA
PROVIDÊNCIA

PIORAVANTE MARCHE

2003

Imagem 09 do espectáculo Pioravante Marche

Construído a partir do texto homónimo de Samuel Beckett, "Pioravante Marche" utiliza-o simultaneamente como ponto de partida e de chegada, investindo na articulação entre palavra e movimento. E se Beckett explorou uma nova
forma de relação entre personagem, espaço, tempo e linguagem, Joana Providência constrói um espectáculo
cuja forte componente física e coreográfica obriga a entender literalmente o propósito de "dar corpo ao texto".



Samuel Beckett (1906–1989) nasceu na Irlanda e, em 1928, mudou-se para Paris. Trabalhou, posteriormente, na Irlanda, em França, Inglaterra e Alemanha e parou, finalmente, em Paris, em 1937. Durante a II Guerra Mundial lutou ao lado da resistência até que, em 1942 voltou a Paris. A sua primeira peça reconhecida foi "À Espera de Godot", 1951. Em 1969, ganhou o Prémio Nobel de Literatura.





















DA INUTILIDADE DA VIDA À EXTREMA NECESSIDADE DA SUA EXPERIÊNCIA.

A coreógrafa Joana Providência explora a articulação entre palavra e movimento. Para ver no TECA.


A palavra como partitura do movimento dos corpos é a proposta do novo trabalho de Joana Providência.
A coreógrafa apresenta, a partir de hoje, no Teatro Carlos Alberto, uma leitura muito própria de "Pioravante Marche" um texto não teatral de Samuel Beckett. Escrito na recta
final da sua vida — quando estava já numa cadeira de
rodas — "Pioravante Marche" é uma das últimas tentativas de entendimento da vida na sua dimensão mais
absurda — a da inutilidade.


Segundo um mito grago, Sísifo era um homem comum que durante a sua vida desprezou os deuses e se entregou à paixão da vida. Ofendidos com a sua atitude arrogante, os deuses condenaram-no a um castigo terrível. Depois da sua morte, Sísifo empurraria uma pedra enorme até ao cimo de uma montanha. Quando chegasse ao topo, esta voltaria a cair e o trabalho repetir-se-ia para toda a eternidade.


Apesar de não ser esta história que se conta em "Pioravante Marche", o mito de Sísifo está absolutamente presente neste trabalho. Sendo Sísifo o herói mais absurdo da mitologia grega é também o que melhor espelha a vida.


Para Joana Providência, existe neste texto a ideia de "viagem" que, em última análise, "não nos leva a lado nenhum", embora seja necessária. "Não temos outra hipótese senão avançar", acredita a coreógrafa. Evitando dicotomias simplistas, é de considerar ainda que essa viagem vista como inútil tem um fim em si mesma. "A morte existe porque existiu vida. Morremos porque vivemos", diz. Esta verdade inabalável pode estender-se também a: falhamos porque tentamos e vice-versa, como sugere o mito grego.


A ideia de viagem circular está patente no texto de Beckett que, acredita a coreógrafa, "passou mais sensações do que emoções". Das palavras do autor irlandês surgiram então os gestos. Estes pretendem tornar fisicamente real as pulsões ritmadas das palavras, sendo por isso necessária uma articulação tão densa que se torne imperceptível a separação de linguagens.


O processo de trabalho de Joana Providência foi, assim, muito parecido com o do próprio Beckett. A depuração da linguagem deste traduziu-se na depuração do movimento na coreografia. "No início trabalhamos muito em improvisação, depois fomos abandonando uma série de material para não nos afastarmos do texto. O corpo tem de exprimir o que o texto passa", explica.


Este espectáculo é o terceiro da programação de 2003 da Academia Contemporânea do Espectáculo/teatro do Bolhão. Confirma-se o eclectismo a que se propõe esta instituição que começou o ano a apresentar "A Irresistível Ascensão de Arturo Ui", de Bertold Brecht, passou pelo musical "A Ópera do Falhado", do português J. P. Simões e termina com o universo do absurdo beckettiano.


"Pioravante Marche" — que conta com as interpretações de Anabela Sousa, António Júlio, Odete Môsso, Pedro Fiúza e Sandra Salomé — pode ser visto até dia 21 de Dezembro.


LUÍSA MARINHO




O FIM

Lembro-me sempre da primeira vez que li Worstword Ho, Samuel Beckett, que muito generosamente me vinha ajudando, durante anos a fio, a traduzir para português cerca de dez peças dele — que a Companhia de Teatro de Lisboa de Graça Lobo foi produzindo, sempre com encenação de Carlos Quevedo — incluiu numa carta, acho eu como amistosa provocação, uma fotocópia das últimas provas de texto.


Dizia ele que seria o único trabalho dele que não iria traduzir — neste caso, para francês. Não por ser intraduzível — não fiquei com essa impressão, apesar das evidentes dificuldades — mas por não ter paciência ou vontade. Creio que a palavra que mais bem descreve a ausência de Beckett é, por acaso, portuguesa: vagar. Não obstante os terríveis problemas
com os olhos — que palavra horrível, mas correcta, é
"vista" — alguma finalidade haveria naquelas palavras tão laboriosamente fixadas que misericordiosamente o poupavam de repensá-las.


Porque toda a tradução, quando é cuidada e aflige como deve afligir, é um incómodo rependimento.


No Caso de Worstword Ho, é preciso desde já dizer que se trata de um texto que não deveria ser lido senão na língua em que foi escrito — e muito menos ouvido e visto em teatro, apesar da sublime integridade, identificação e empatia criativa de Joana Providência e das pessoas que escolheu para o pôr em palco — tudo isto com a plena autorização dos notoriamente difíceis testamenteiros literários de Beckett.


Trata-se de uma produção cujo arrojo e cuja lealdade são uma prova de amor que todos aqueles que amam a escrita de Beckett partilham com gratidão e solidariedade.


Worstword Ho é o mais sucinto e refinado texto de Beckett. Não é, nem de longe, legível. São tais a concentração semântica, a invenção vocabular e gramatical o apuro e redução expressivas, que é indispensável determo-nos em cada construção verbal, para que nos seja cedido tudo aquilo que concentra e economiza.


É vulgar dizer-se que traduzir é a melhor forma de leitura atenta — de "classe reading". Mas, neste caso, ultrapassam-se todos os limites, É o próprio texto que assim exige. Na verdade, tive de numerar cada período e coordenar a tradução de cada um conforme o desenvolvimento que cada um ia atingindo, alterando não só a percepção do que lia como o sentido absolutamente instável do que já tinha lido.


Beckett é conhecido como o autor que escrevia 500
páginas e lentamente teimava em reduzi-las, à medida
que ia aperfeiçoando a vontade (e técnica) impotente de exprimir sem se ser capaz de de se exprimir, para 100; para 50; para 5.


Pioravante Marche, na minha tão trabalhosa mas afinal perfeita tradução (graças apenas à ajuda do autor), é o exemplo maior e último desta tradução interna, de cada palavra, que Beckett demorou uma vida e uma obra inteiras a conseguir.


Não é um princípio, nem uma tentativa, nem uma proposta.
É o fim. E é como fim — fim de obra, fim de expressão, fim de conversa — que deve ser lido, visto, ouvido e apreciado.


Não porque merece (embora mereça). Não porque parece (embora pareça). Mas apenas porque é; é mesmo; o fim que diz ser. O "ser" pode ser esquecido — mas o "diz" é que não.


MIGUEL ESTEVES CARDOSO

Imagem 10 do espectáculo Pioravante Marche
Imagem 02 do espectáculo Pioravante Marche
Imagem 03 do espectáculo Pioravante Marche
Imagem 06 do espectáculo Pioravante Marche
Imagem 12 do espectáculo Pioravante Marche
Imagem 04 do espectáculo Pioravante Marche
Imagem 01 do espectáculo Pioravante Marche
Imagem 07 do espectáculo Pioravante Marche
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Imagem 11 do espectáculo Pioravante Marche
Imagem 13 do espectáculo Pioravante Marche

Direcção e espaço cénico → Joana Providência

Figurinos → Ana Teresa Castelo

Adereços → Paulo Oliveira e Frederico Godinho

Desenho de luz → José Carlos Gomes

Sonoplastia → Luís Aly

Vídeo → José Carlos Gomes e Paulo Veiga

Voz → Teresa Lima

Intérpretes → Anabela Sousa, António Júlio, Odete Môsso, Pedro Fiúza e Sandra Salomé

Direcção de produção → Pedro Aparício e Glória Cheio

Co-produção → ACE/Teatro do Bolhão e TNSJ

Webdesign: Francisca Maia